NO INTERIOR DE NÓS?
 

Aqui, as imagens seguem narrativas andantes. Repare. Em cada figura fixada transita o que não divide, o que não para. Lugares são pedaços de afetos que se movem e se descobrem.

 

Entre cidade e sertão resiste um continente de costumes, desejos e tradições. O Interior se territorializa no calor do asfalto. Tem sertão nos semáforos que abrem e fecham apressados: no “Chiquim do Frontero”, no “Bar do amado”, nas letras do “Vendemos carne, costela, fígado”, ou simplesmente no fumo do vaqueiro a baforar vias de passagem. A efígie do homem que mira a fresta da porta encarnada, ateia a pele de quem vê.

Que distancia nos liga ao que deixamos?
 

As imagens são ardis de montagem. Apenas mexe quem vê com o corpo inteiro. Não se conta uma vida afora a experiência tátil. O algodão doce prega nos dedos o azul e o rosa. Lambe-se os resíduos da memória. O corpo do fotógrafo se estica e se contrai, interpela restolhos banais do cotidiano. A visão sinestésica emoldura a cena. A câmera é textura sensível. Os olhos de Rodrigo atravessam fronteiras que sequer existem e avizinham interiores de si, de nós. Da janela avistamos retratos do fora, eclodindo como faíscas da cultura e da memória.


Notas de precaução: não passarás indiferente. Cada retrato é um grito silencioso. Um rajar de ventos. Fendas de inquietude cortam o que vemos.


As dez obras da série o “Interior de Nós” convocam a imaginação. Estreitam a relação entre narrativa e imagem, como se o gesto da fotografia abrisse um lapso de lirismo entre proximidade e distância, entre nostalgia e permanência, entre cidade e sertão.

O que pode o corpo entre lugares? Não é difícil ver. Multidões e máquinas percorrem cenas de desencontro na cidade. Os lambes colados pintam o ritmo inaudível do esquecimento e da lembrança. Braços, pernas, sol, vento, lentes, dedos, suor, texturas, cheiro, música e cor vão erguendo-se das dez obras. Multiplicando a Fortaleza murada das memórias.

 

Deixando ver gente que ainda se move entre intempéries. Mesmo que se pronuncie, nas linhas de Guimarães Rosa que viver é muito perigoso, não há recuo.
 

Rodrigo sabe que o longe é apenas um lugar que ainda não conhecemos. Dispensemos os mapas. No Interior de nós o distante é bem aqui.

 

                                                                                          Glória Diógenes